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September 4, 2011
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Fragmento de História



Ele corria enquanto a agonia o matava. Será que correr seria o suficiente? Nada mais lhe importava. Não tinha mais vontade de ver seus amigos, queria estar sozinho, queria que tudo isso acabasse. E a única coisa que podia fazer era correr, correr o mais rápido que podia.

A chuva escorria pelo seu rosto, a sua respiração criava um denso vapor no ar congelante da noite. "QUE RAIVA", "QUE MERDA". Pensamentos e sentimentos crus o sustentavam e alimentavam sua vontade de correr. Vestia uma camisa social branca com uma gravata azul e uma calça que pertencera a um conjunto de terno, seu sapato estava sujo de lama e sua meia estava totalmente encharcada, como era de se esperar.

Estava chegando à Avenida principal da cidade. Os carros tricotavam seu caminho no denso movimento noturno. As motos deixavam o rastro vermelho de seus faróis em alta velocidade. Porém ele não pensou, apenas continuou correndo, pois em toda sua vida ele nunca pode correr.

A obrigação de ser o exemplo sempre lhe esteve presente. Desde os primeiros dias de seu Ensino Médio ele ja se demonstrava prodígio: havia sido o representante de classe e melhor aluno da sala. Suas notas eram impecáveis. Seus trabalhos, tarefas de casa e respostas em sala de aula também. Fora criado assim pelos pais: com o intuito de ser perfeito. Perfeito significa: somente você conhece seus defeitos, e ninguém mais. Defeitos: o que demonstra sua fraqueza. Fraqueza: o caminho para a infelicidade. Infelicidade: ninguém mais irá gostar de você, você é ninguém.

Formou-se e entrou na melhor faculdade disponível, com honra. E lá ele estudou, e se graduou com louvor, assim como esperado pelos pais. Os próximos o admiravam, ele sempre conseguia realizar suas vontades, mesmo parecendo impossível. Não havia falhas, não podia haver. Falhar significa decepcionar. Decepcionar: pessoas irão se afastar de você, solidão. Solidão: imperfeição. Imperfeição: você é ninguém.

Um carro quase o atropelou, buzinas ecoaram em seus ouvidos. Alguém gritou "Você tá louco!?". "Filha da Puta". "Tá querendo morrê, é?". Olhava para o asfalto, as linhas brancas que demarcavam a faixa de pedestre conduziam seu caminho.  Caminho, que caminho? Ele não sabia para onde ia, apenas corria. Não podia parar, não agora. Conhece a sensação de que se você der um passo em falso um abismo irá se abrir sobre ele? Ele sentiu isso a vida toda. Não podia haver falhas, não pode haver falhas, não haveria falhas.

Falhar: ser incapaz: Incapaz: inútil, sem habilidades. Inútil: desgostado. Desgostado: você é ninguém.

Ouviu um barulho de freada brusca. Não olhou, esperou que fosse morrer. O solo está muito úmido. Um carro anda normalmente a 60 quilômetros por hora nessa avenida. Levando em conta que o tempo de reação de uma pessoa para frenagem é de, em média, 1.15 segundos o carro iria andar... Porém hoje é noite de sábado! Pessoas alcoolizadas estão dirigindo, portanto esse tempo será maior e a velocidade provavelmente também. Levando em conta que o carro esteja andando a 100 quilômetros por hora neste momento, ele andou aproximadamente 33 metros até perceber que havia uma pessoa em sua frente, porém se ele estivesse alcoolizado, ele poderia ter andado 55 metros. Então ele apertou o freio, e ele vai andar mais 50 metros até sua parada total, mas hoje é um dia chuvoso, então provavelmente ele iria dar uns 90 metros até a parada total se o pneu estivesse em boas condições. Se não, ele and.... E ouviu um barulho de colisão, provavelmente dois para-choques se chocando atrás de si. Estava vivo ainda, e correndo.

Se ele tivesse morrido seria tudo incrivelmente mais fácil, o abismo que ele mesmo criou jamais o alcançaria. Era a primeira vez que corria de seus problemas. E se sentia bem, pois podia correr. Jamais pensou na possibilidade da fuga, não poderia haver fuga, não poderia haver descanso. Descanso: falta de vontade e empenho. Fuga: medo e falta de habilidade. Resultam em: falha. Falha: você é ninguém.

Um trovão cortou o céu e acertou um para-raios. Lembrou-se de seus pais e de sua casa. Morou em um apartamento, e nas noites chuvosas gostava de ir até a sacada ver os raios cortarem os céus. Seu pai costumava acompanhá-lo e explicar o fenômeno: "Um raio acontece quando existem cargas elétricas opostas entre a Terra e as Nuvens. Quando a energia contida no campo elétrico criada pelos Íons consegue superar a resistência dielétrica do ar há uma descarga violenta de energia." Lindo. Perfeito. Como ele deveria ser.

Seu pai sempre lhe ensinou muita física. Ele, como um renomado físico, tinha que ensinar seu filho tudo que podia para ele continuar sua saga. Seu pai nunca lhe abraçou ou lhe confortou nos momentos de necessidade. Ele não tinha necessidades, não existem necessidades para quem não comete erros. E assim também era sua mãe, famosa advogada. "Tinha mais amor pelos seus clientes do que pelo seu próprio filho" ele pensou.

Sua perna estava doendo, o ácido lático estava começando a lhe causar câimbras... Até sua pretendente via nele a perfeição. Ela nunca pensou que nos momentos em que a procurava ele buscava um pouco de carinho, e não mais cobranças e discussões intelectuais. "Medicina é um tanto interessante" concordou mentalmente, mas ela não tinha de lhe ensinar tudo que sab...

Seu pulmão lhe deu uma agulhada repentina. Sabia que não aguentaria por muito mais tempo correr naquele ritmo, mas não queria parar de correr. Não agora que finalmente havia descoberto que podia fazer isso. Passou a vida toda seguindo um caminho já estipulado para ele, e que ele achava que era o único caminho que podia seguir. Talvez fosse. Talvez agora ninguém o amasse mais, pois ele falhou. Falhar: você é ningu...

Tropicou e esbarrou em alguém, rolou pelo chão junto do corpo que o parou. Um guarda-chuva foi levado pelo vento. Sua calça se cortou no chão, seu joelho se ralou. Sentiu a poça de água do chão se levantar até seu rosto e tentar afoga-lo. "Por favor, me afogue". Seu rosto sentiu o impacto do asfalto. Dor.

Lembrou-se da primeira vez em que foi a uma aula de natação, como se esforçou. Não podia falhar. "Filho, tudo na vida é um desafio. Aqueles que o superam primeiro são os que irão liderar os outros". E assim foi a primeira criança que aprendeu a nadar dentro de sua turma. E assim foi o primeiro que liderou. E assim os outros o seguiam, como um ideal. E assim não poderia falhar. Falhar: você é ning...

- Ei, você está bem?

Uma voz o interrompeu. Levantou sua cabeça da pequena poça d'água e do seu passado. E olhou.

Havia uma moça. Cabelos negros lisos. Sobretudo marrom. Cachecol negro. Sorriso. Calça jeans rasgada. Sangue na canela.

- Me perdoe, eu não te vi. Eu vou pagar pelo estrago na sua calça, me desculpe! Você está bem? – Ela se aproximou – Você está chorando?

Chorar: fraqueza. Fraqueza: o caminho para a infelicidade. Infelicidade: ninguém mais irá gostar de você, você é n...

- Ei, você está bem? – Pausa – Moço?

Ele percebeu então a situação.

- Mil perdões, moça. Eu estou com pressa e acabei esbarrando em você. Tome – Tirou uma quantidade de dinheiro da carteira acomodada no bolso traseiro de sua calça – Isso deve pagar pela calça e pelo inconveniente. Perdoe-me.

Então ele se levantou, e quis saber quanto tempo mais escaparia do abismo que o perseguia agora. Sabia que não demoraria muito para que tudo desabasse. "Correr, eu preciso correr".

- Com licença, mas eu não preciso do dinheiro, na verdade foi culpa minha que nós trombamos. Tome seu dinheiro de volta, por favor.

Uma mão, úmida e ralada devido ao acidente que ocorrera a pouco, se estendeu em sua frente com o dinheiro que ele mesmo havia retirado da carteira.

- Moça, eu estou atrasado. Não tenho tempo para discutir trivialidades. Por favor aceite meu dinheiro, não me fará falta. – Mentiu sobre o atraso.

- Olha: eu não sei se vai fazer falta ou não. Mas o que importa é que a culpa é minha e eu não vou aceitar dinheiro dessa maneira. – Protestou – Além do mais, você não tá atrasado pra porcaria nenhuma. Você precisa é de ajuda. – Disse a mulher com um tom amigável – Venha, eu lhe pago um café.

"Intrigante".

Dogma: crença ou ideologia considerada indiscutível. Quebra de um Dogma: falhar e achar alguém que se importe.
Do nada. Não sei se continuarei. Deu vontade [?]. Narf. Domingo a noite é amor.

PS: Deve estar cheio dos erros.

:icondonotuseplz::iconmyartplz:
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:iconririneu:
ririneu Featured By Owner Oct 6, 2013  Student Writer
 Conto interessantíssimo.
 Impressionante como você conseguiu criar a sensação de angústia e aprisionamento apenas utilizando as ideologias impostas pela sociedade.
 Você captou bem o espírito de como é o mundo. Falta amor nele. Muito amor. As pessoas simplesmente não se importam umas com as outras, acham que só porque alguém parecesse forte é porque é forte.
 A verdade é bem outra.
 Todo e qualquer ser é frágil. Extremamente frágil. É só colocar um pouco de pressão em cima - qualquer tipo de pressão já serve -, e manter essa pressão. E pronto. A pessoa desmorona. Ela perde a integridade, a sanidade, e fica louca... E descobre que essa loucura não é senão outra manifestação da sanidade - da crença de que ela está louca quando na verdade está sã.
 E o ser humano é deveras curioso em tal aspecto. Ele tenta ser forte, quando, in verdade, deve se mostrar como é - um ser frágil, que só precisa amar e ser amado. Ele deve se mostrar livre de máscaras, crenças, paradigmas e dogmas, e tudo em nome da própria felicidade. Pois, se ele o fizer, será feliz. Será amado. Terá atenção e alegria inerente à sua condição.
 Mas ele não quer tal coisa.
 Como suas palavras o disseram, ele considera tudo um inimigo. Considera tudo uma ameaça. Não percebe que a ameaça está dentro dele mesmo - o levando a acreditar em tal perigo inexistente.
 Ele sente que precisa fazer algo, precisa mostrar algo ao mundo... Senão ele não é alguém, ele se torna ninguém.
 E ele se perde em frivolidades. Se perde em objetivos vazios - conseguir dinheiro para ser feliz -, quando não percebe que a derradeira felicidade está dentro dele. Ele busca no exterior a paz - a aprovação externa - que está em seu interior.
 Ele busca a liberdade... Nada mais, nada menos.
 Ele quer ser livre, quer respirar o ar fresco após o mergulho profundo... Mas isso sempre lhe é negado.
 Lhe é negado amor, compaixão, compreensão... Ao ponto dele esquecer como é isso, e se afogar nesse oceano de lágrimas ao ponto de não saber mais como é o gosto do ar.
 
 Bem, mas quanto ao texto em si, foi realmente muitíssimo interessante. Só achei que, como você não sabe se irá continuá-lo, poderia ter dado um desfecho libertador para tal. Poderia ter mostrado a própria rota do indivíduo à libertação - o sonho que ele tinha.
 Como fazer isso?
 Simples. Coloque uma ocasião em que ele esbarraria naquela mulher. No entanto, ao invés de se perder com algum diálogo vazio, poderia ter sido descrito algo mais intenso:
 " Me ergui, trêmulo, e olhei para a moça. Ela retribuiu meu olhar, deu um fraco sorriso, o início de uma risada... Mas então reparou na minha expressão. Ficou séria, e disse:
 - Você está bem?
 - Estou, claro...
 Seu olhar tornou-se inquisitivo:
 - Você não está bem. Está sofrendo. O que o aflige? O que o prende? Do que você estava correndo?
 Atordoado, não consegui responder direito.
 - Eu estava... Estava me exercitando, correndo um pouco.
 - Claro, correndo... - Ela analisa minhas roupas - Mas você não está vestido para corrida, muito menos está com a atitude de um corredor.Do que você estava correndo?
 A intensidade desse questionamento começou a me incomodar. Me senti irritado.
 - Eu não estava correndo de nada. Nem estava correndo. Você é que esbarrou em mim. Você é quem estava correndo - só quando as palavras saíram é que percebi o ridículo absurdismo delas.
 Escutei uma risadinha.
 - É, você está mesmo precisando de ajuda. - Seu olhos profundos adquiriram um ar mais ameno - Se não quiser essa ajuda, tudo bem. Eu já estava mesmo indo... No entanto, eu quero lhe ajudar. E por isso vou perguntar uma última vez: do que você estava correndo?
 Me senti desarmado antes aquele convicção. Pensei em reagir com outra frase arrogante... Mas será que havia mesmo necessidade de continuar lutando? De continuar nessa espiral decrescente à loucura do não amor?
 Compreendendo meu diálogo interno, ela disse:
 - Se não quiser aqui, podemos conversar em outro lug...
 Não. Era agora ou nunca. Disparei:
 - De tudo. Eu estava correndo de tudo. Da minha família, da minha vida, de mim mesmo. Eu... Eu não aguento mais. Não quero mais precisar da aprovação dos outros... Quero ser livre. Preciso ser livre... Eu... Eu...
 Ela aproximou-se de mim, e deu um sorriso simpático:
 - Está tudo bem, nós vamos superar isso. Venha cá.
 Antes que eu pudesse protestar, seus braços me envolveram. Por meio segundo, pensei em fugir, em escapar dessa demonstração de afeto... Mas era tão quente. Tão maravilhosamente quente. E eu estava cansado do frio. Me aconcheguei em seus cabelos, e senti seu perfume suave e cálido - o perfume que minha mãe usava, e que apenas senti uma vez, em outros tempos, em distantes tempos - na minha infância. Será que fora neste vida?
 Escutei um sussurro:
 - Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui, vou ficar com você... Nós vamos superar isso. Você será feliz. Apenas acredite nisso. Eu acredito em você. Não precisa mais ser forte. Não precisa mais fingir. Eu quero fazê-lo feliz. Só me aceite - aceite esse meu amor. Não há mais necessidade de sofrimento silencioso ou de lágrimas reprimidas... é hora de você ser feliz... É hora de você ser livre.
 Sem perceber, eu estava chorando."
 
 Bem, e esse é apenas um exemplo. Há infinitos. Depende de cada escritor - do que ele acredita que pode fazer para transmitir ao mundo a sua mensagem.
 E já estou me alongando demais rs
 Até e continue assim! :)
Reply
:iconbelldandycris:
BelldandyCris Featured By Owner Jan 2, 2013
Gostei muito do seu texto. Tem muito espírito ^^
Adoro contos, para dizer a verdade. E o seu está muito bom :)
Já está nos meus favoritos :)
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:iconmadchronicler:
MadChronicler Featured By Owner Jan 8, 2013  Student Writer
Obrigado Belldandy!

Esse conto já é meio antigo nas minhas produções, mas eu gosto muito dele.

Obrigado pelo favorite e pode ficar a vontade em fazer qualquer crítica =).
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:icontabatafattori:
tabatafattori Featured By Owner Aug 8, 2012  Student General Artist
Gostei do seu texto, nos prende na história, espero que tenha continuação, vou ficar aguardando, rsrs
Reply
:iconmadchronicler:
MadChronicler Featured By Owner Aug 8, 2012  Student Writer
Muito obrigado, Tabata =).
Reply
:icontabatafattori:
tabatafattori Featured By Owner Aug 8, 2012  Student General Artist
Oi De Nada, fica com Deus e obrigada!
Reply
:iconencaitarherenvarno:
EncaitarHerenvarno Featured By Owner May 21, 2012  Student Writer
Ah, esse mundo rápido destrói a humanidade das pessoas... >.<

Gostei ^^
Reply
:iconmadchronicler:
MadChronicler Featured By Owner May 21, 2012  Student Writer
Obrigado Jaime =).

Valeu pelo favorite também.
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:iconencaitarherenvarno:
EncaitarHerenvarno Featured By Owner May 23, 2012  Student Writer
No problem ^_^
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:iconb-jester:
B-jester Featured By Owner Apr 4, 2012  Hobbyist General Artist
Achei muito boa a construção do personagem e do cenário, que não ficou forçado e fluiu bem. A apresentação foi feita com maestria, tanto da história dele como da forma como ele vive, o que torna o motivo concreto dele correr ao mesmo tempo óbvio e irrelevante.

Há ótimas frases. Uma que gostei particularmente foi: "e sua meia estava totalmente encharcada, como era de se esperar."

A repetição da impossibilidade de falha mostrou a opressão bem, passando a angústia. Gostei do estilo como foi colocado, a cadência que leva ao mesmo lugar, ao mesmo nada.

No entanto, a personagem feminina poderia ter sido melhor construída. Não sei bem porque, mas ela me pareceu plana, quando não deveria ser. As frases dela não ficaram muito boas, a construção do dialogo poderia ser melhorada na parte dela, pois ficou artificial.

E considerando que ela é a quebra do texto, deveria ser dado a ela o destaque necessário. Faltou algo aí.

Mas ficou ótimo.
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